quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

TERAPIA CONTRA O MEDO

Na rua escura de minha memória, quem vem lá adiante? 

Será o porco Poinco, que um dia eu descobri num texto de minha infância? Porco Poinco adorava comer maçãs. E como eu também adorava maçãs, peguei afinidade com porco Poinco. Criança é assim, a sua dedicação está em descobrir logo uma afinidade, só pra ter pretexto.

Inclusive, a gente sabe que uma criança está deixando de ser criança quando a sua dedicação começa a se ocupar de descobrir diferenças. Algumas se especializam com tal dedicação que, quando adultas, são capazes de mapear diferenças numa reles descida de elevador:

- Viu como ela está gorda?

- Ela quem?

- Essa metida do 703. Gorda, gorda. 

- Não reparei.

- Não entendo essa coragem dela.

- Coragem?

- De colocar um vestido desses! Você é cego? Não viu a estampa horrorosa?

Por puro experimento literário, vamos pedir que a mesma vizinha do 703 perca alguns minutinhos e repita a descida no elevador, só que na companhia de uma criança. Ao sair do elevador, a criança terá reparado nas pedrinhas da sandália da vizinha do 703, ou na estampa da vizinha do 703, ou no tamanho da vizinha do 703. Mas o rápido convívio com a vizinha do 703 terá servido para estimular a imaginação e não para anestesiar o lugar-comum do juízo de valor.

É por causa desse lugar-comum que a gente anda com tanto medo. Em vez de criar pontes, estamos construindo abismos. Aí, tem que dar medo mesmo. Porque o simples ato de caminhar passa a ser um exercício perigosíssimo. 

Tem gente que não consegue caminhar nem dentro de si mesmo. Se profissionalizou tanto na arte de escavar abismos que já não consegue mais transitar dentro de si mesma sem medo de cair. Qualquer memória pode ser a senha para um precipício. 

É preciso que cultivemos a arte de sermos flanêurs de nossas paisagens internas. De que, de vez em quando, caminhemos a esmo, por entre lembranças, cheiros, saudades. Sem guia de viagem. Para que, imersos nas ruas escuras de nossas memórias, tenhamos a chance de reencontrar o inesperado. Um porquinho comedor de maçãs, que seja. E possamos abraçar e botar o papo em dia com aqueles que, antes de mais nada, somos nós mesmos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O PODER DA NOSTALGIA

Em tempos de crise, uma das estratégias encontradas pelas sociedades é buscar o passado. Isso porque o passado acende a nostalgia. E a nostalgia, ao mesmo tempo em que traz uma sensação de conforto quase infantil, também abre a possibilidade para as reflexões sobre o tempo atual. Não é raro que, tomados pela nostalgia, nos perguntemos sobre as decisões que tomamos, quem nos tornamos, onde erramos e acertamos. 

A 84a. edição do Oscar, realizada no último domingo, é um exemplo. Todos têm voltado suas atenções para os dois longas mais premiados da noite, O artista e A invenção de Hugo Cabret. Ambos evocam o passado e a nostalgia tanto no conteúdo quanto na forma. 

Esse também é o caso do ganhador do Oscar de curta de animação, The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore. Articula forma e conteúdo para gerar uma nostalgia que, indiretamente, estimula o espectador a refletir sobre os valores dos dias atuais: 



Aliás, esse tipo de estratégia - de responder às crises com nostalgia - está presente de muitas formas. Basta reparar, por exemplo, no texto da propaganda do protetor solar que relativiza o papel da internet e diz que a vida gira em torno do sol. Está tudo aí, aparentemente sem conexão, mas apontando para um mesmo caminho. Basta a gente reparar.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ARTIGO NO O FLUMINENSE

Saiu ontem na revista de domingo do jornal O Fluminense um artigo meu sobre a necessidade de apostarmos nas relações humanas. Um assunto que não é novo, mas continua urgente. Quem quiser ler, acho que basta clicar na imagem para ela aumentar. Ou vai lá na página 34 da versão online da revista.

SEGUNDA-FEIRA DE EIRAS E BEIRAS

O pensamento mais besta me ocorreu: algumas palavras são felizardas de nascença. Nunca vão poder ser colocadas no grupo das que não têm eira nem beira. Cachoeira, por exemplo. Tem eira. Basta reparar na ortografia. E tem beira. É só visitar uma cachoeira para comprovar. Toda cachoeira tem beira. 

O mesmo ocorre com primeira. Tem eira e tem beira. A beira de primeira é a vontade. Ou a necessidade. Que faz a gente ir lá e realizar. A primeira entrevista de emprego. A primeira viagem. A primeira mudança.

Por essa lógica, acho que nenhuma palavra é tão felizarda quanto palmeira. Tem eira e tem mais de uma beira - a física e a poética. A beira física da palmeira é o verde, acho. Já a beira poética da palmeira é o sabiá. Como não? Culpa do Gonçalves Dias, que colocou o sabiá cantando na palmeira na sua Canção do Exílio, escrita em 1843. São quase 170 anos de serviços prestados. O sabiá já ganhou direito ao status de beira poética da palmeira por usucapião.

Usucapião: essa sim, palavra sem eira nem beira. Que não estimula a imaginação.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

EXERCÍCIO POÉTICO PARA NOITE DE VERÃO BEM QUENTE


Exercício poético para noite de verão bem quente

Eu abri as janelas de par em par
para admirar a lua cheia e esperar
que a noite trouxesse o meu amor.

Mas aí entrou um mosquito

e um maribondo e em seguida uma barata
(por pouco não dei um grito)
e o inseticida na lata
estava quase no fim

e, das vitrines do botequim,
uma mosca varejeira
com ares de brejeira 
veio zumbindo zunindo na minha cabeça.

Pois se é preciso tudo isso para um naco de inspiração,
dane-se o luar branco do verão! 

Vou esperar pelo amor aqui dentro,
as janelas muitíssimo bem fechadas. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

URGENTES

Uma das grandes seduções do Carnaval é fazer a gente acreditar que a vida é eterna. Eterna e múltipla. Vestimos máscaras, fantasias, nos perdemos no labirinto da alegria na esperança de que a nossa própria memória não nos alcance. De que, perdida no labirinto, a nossa memória seja forçada a se despojar das culpas e das dívidas, das dores e das dúvidas, para que seu corpo fique mais leve e só então ela possa nos buscar e nos reencontrar.

A estratégia do Carnaval é submeter nossa memória a um regime. 

Mais leve, a memória nos reencontra para nos lembrar que não somos eternos. Não somos eternos porque somos seres aprimorados. Quando os deuses nos fizeram, já tinham experimentado a eternidade por tanto tempo que, coitados. Aquilo era um tédio. Foram unânimes na decisão de celebrar a nossa criação tirando a eternidade e colocando uma tecnologia avançadíssima em seu lugar: a urgência.

Não esqueçam, portanto. Passado o Carnaval, lembrem-se do presente que é ser fabricado com tecnologia de ponta. Para que a memória não corra o risco de pesar e parar no labirinto da alegria, lembrem-se de que é preciso fazer o melhor uso possível dessa tecnologia:

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A NUDEZ DE GRETA GARBO

Greta Gargo no mar Mediterrâneo, na
década de 1960; a atriz se despediu
do cinema em 1941, com "Duas vezes
meu", mas só viria a falecer em 1990
Jane Fonda devia ter seus 16 anos. Seu pai havia casado com uma socialite italiana e eles estavam no sul da França, onde haviam alugado uma casa à beira do Mediterrrâneo. E muita gente famosa vinha visitá-los. As pessoas raramente reparavam em Jane, que sentia apenas uma adolescente solitária.

Até que, num desses dias, Greta Garbo veio almoçar. Ela olhou para Jane e perguntou: 

- Você gostaria de vir nadar comigo?

Jane tomou um susto. Mas aceitou o convite. Greta Garbo desapareceu e voltou vestida com roupão e touca branca, dessas, próprias para natação. As duas desceram as escadas, se aproximaram do mar. Então, Greta Garbo abriu o roupão e deixou que ele caísse. E ela estava nua. E, para a surpresa de Jane, Greta Garbo não era perfeita. Era uma atleta, era musculosa, mas não era perfeita. Jane ficou tão feliz de descobrir que o que Greta Garbo guardava debaixo do roupão era "apenas" um saudável, que, enquanto Garbo mergulhava, Jane ficou ali, diante de alguma lição que ela sabia ser valiosa. Mesmo assim, foram necessários muitos anos - e muitos reveses - até que ela compreendesse: "Nós não somos destinados a ser perfeitos; nós somos destinados a ser completos."

* * * 

Essa é uma das muitas histórias que Jane Fonda revela na Master Class que gravou para o OWN, o canal de tevê de Oprah Winfrey. Com o mote de "Use a sua vida como uma aula", a série dedica cada episódio a uma personalidade, que reflete sobre o seu percurso de vida. Condoleezza Rice, Morgan Freeman, Ted Turner, Maya Angelou são alguns dos que deram suas Master Class

A de Jane Fonda, em particular, é uma verdadeira preciosidade. Durante mais de 40 minutos, ela relembra a conturbada relação com o pai, o suicídio da mãe, a obsessão com o corpo perfeito e a anorexia e os ensinamentos recebidos de Katharine Hepburn.

O vídeo, em inglês, pode ser visto aqui.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

BASTIDORES DE CARNAVAL

A bunda e a minissaia decidiram desquitar. "Amigavelmente", diziam as manchetes dos jornais, mas a verdade é que havia muita mágoa e ressentimento. A minissaia acusava a bunda de ser exibida; a bunda acusava a minissaia de ser indecisa.

Tudo começou quando a bunda, influenciada pela literatura de autoajuda (com seus mimimis de que o sucesso vem do poder de decisão etc. etc. etc.), começou a pressionar a minissaia: 

"Ou me mostra ou me esconde! Decide!", ao que a minissaia respondia:

"Por que eu não posso mostrar e esconder? É o meu jeito de ser!" 

E como em toda discussão, voltavam à estaca zero, com a bunda vociferando que a minissaia era uma ambígua e a minissaia dizendo que a bunda não podia ser assim tão dicotômica. 

No dia da audiência, a bunda nem quis ouvir falar de acordo. Ao juíz então restou indagar como ficaria a partilha de bens. Visivelmente abatida, a minissaia alegou que ainda não havia pensando em nada. Mas a bunda tomou o microfone e disse:

- Ela pode ficar com todo o resto, mas o carnaval de tevê é meu.

Nascia ali uma bunda tão firme quanto desapegada.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A DOMESTICAÇÃO DO TEMPO

Há uma outra hipótese para o silêncio. Que é quando o tempo vem descansar dentro da gente. Como um amigo antigo, que a gente conhece muito bem, mas encontra só de quando em quando. Porque ele é muito requisitado e está sempre correndo pelo mundo. Até que um dia liga pedindo socorro. E você o recebe. E acabam se divertindo de maneiras tão antigas e simples que você nem lembrava mais - como quando ele brinca de embaralhar presente, passado e futuro, fazendo você sentir coisas tão absurdas como nostalgias do agora e saudades de um futuro muito distante. Em agradecimento, você o ensina a escavar o azul da tarde em busca de pequenos tesouros, como o voo de uma andorinha antiga, ou o rastro de um meteorito. 

Então o tempo avisa que é tempo de partir. Para distraí-lo, você precisa ensinar novos jogos, mas, como não sabe mais nenhum, improvisa. E quando percebe, lá está você ensinando o tempo a colher cantos de pássaros perdidos no vento, ao que ele agradece com um truque que nem ele sabia que sabia - como esse, em que ele escolhe um segundo ao acaso e sopra tanto ar, que, rechonchudo como um balão de festa, o segundo se atrapalha, reclama que não foi feito para isso, ziguezagueia no ar e demora a passar.

Assim, aos poucos, esse tempo que não parte acaba se tornando um tempo só seu. E ele acaba incorporando coisas suas e você incorporando coisas dele de tal maneira que, um dia, você não sabe mais onde você começa nem onde ele termina. E então o tempo passa a ter um lar onde antes ele tinha você e você passa a ter um lar onde antes você tinha o tempo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O NASCIMENTO DA TRAIÇÃO

Peço desculpas. Estou em silêncio. É um estado de coisas que não sei explicar muito bem, mas que me faz lembrar de uma anedota que, se não existe, vou inventar. Da estátua que, com cãimbras de estar séculos na mesma posição, mandou chamar o escultor para pedir uma solução. Foi informada que o escultor estava morto. Muito triste, a estátua mandou então que fosse esculpida uma estátua do escultor morto. Ao ser perguntada se aquilo era uma homenagem, a estátua respondeu que, se não podia se curar de sua cãimbra secular, ia pelo menos se vingar - ficando acompanhada.

Acho que o meu silêncio é um pouco isso. É quando me lembro do medo que tenho de que as palavras estejam irritadas com o fim que dou a elas e então sou invadido pela certeza de que elas planejam algum tipo de vingança. De que elas vão se organizar de uma forma tão inesperada que darão origem a um texto tão inesperado e diferente que eu não poderei assiná-lo - pelo menos, não se eu quiser me manter fiel ao que chamo de estilo.

E então é preciso decidir entre o medo e o estilo. Porque um dos dois será traído.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

MADRUGADISTÃO

Ontem, num lapso de insônia, fiquei pensando: coitada da madrugada! Porque todo mundo dá bom dia, boa tarde e boa noite. Mas quem aí já ouviu um boa madrugada? Ao longo de uma madrugada, os apegados dão boa noite e os ansiosos dão bom dia. E a madrugada lá, tadinha, servindo de abrigo para os sonhos de tantos e testemunhando o seu próprio esquecimento.

Mais ou menos como um arqueólogo que decidisse construir um museu para preservar as memórias de um distante império, acho que vou começar a coletar os os escombros da madrugada e escrever um romance. Esse império, eu batizarei de Madrugadistão. Fruto da arqueologia literária, a única capaz de resgatar um império no exato momento em que o cria.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

NOVOS VERBOS PARA O NOSSO TEMPO

Alguém lembra do verbo paquerar? Teve uma época em que o Carnaval era época disso, paquerar. Hoje, as coisas mudaram e paquerar entrou em estado de antiquariato. Não tem nada demais, toda palavra muito gasta precisa descansar um pouco mesmo. 

Mas isso me deixa pensando que deveríamos criar um substituto pro paquerar. Mais condizente com os tempos atuais. Sobretudo pro pessoal que gosta de uma quantidade. Ainda mais com o Carnaval chegando. Por que os priorizadores de quantidade não assumem logo esse lado e transformam qualquer em verbo assumem que o negócio deles é qualquerar? Eu qualquero, ele qualquera, nós qualqueramos etc. 

Basta reparar. Hoje em dia, na boate, muita gente não paquera; qualquera. E no Carnaval, então, neguinho bebe e qualquera - qualquera a rodo. É um jogo justo: você qualquera e é qualquerido. E depois é esquecido. 

Só que tem a turma dos incompetentes emocionais. Os que querem qualquerar mas depois reclamam de não serem valorizados.  Nesse caso, aproveito e emendo com outra sugestão: a criação do qualquerer, primo do qualquerar: "Eu qualquis, mas não deu", indicando que você queria quem aparecesse, mas nem isso apareceu.

Afinal, tem uma turma ficando especialista em alienação afetiva. Cujas conquistas estão virando, cada vez mais, qualquistas. Que na semana seguinte já nem fazem parte do passado, de tão mal passadas que são. E tem gente que coloca medalha no peito se gabando de ser um qualquistador profissional. Mais estranho que isso, só o povo que aplaude. 
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