Será
o porco Poinco, que um dia eu descobri num texto de minha infância?
Porco Poinco adorava comer maçãs. E como eu também adorava maçãs, peguei
afinidade com porco Poinco. Criança é assim, a sua dedicação está em
descobrir logo uma afinidade, só pra ter pretexto.
Inclusive,
a gente sabe que uma criança está deixando de ser criança quando a sua
dedicação começa a se ocupar de descobrir diferenças. Algumas se
especializam com tal dedicação que, quando adultas, são capazes de
mapear diferenças numa reles descida de elevador:
- Viu como ela está gorda?
- Ela quem?
- Essa metida do 703. Gorda, gorda.
- Não reparei.
- Não entendo essa coragem dela.
- Coragem?
- De colocar um vestido desses! Você é cego? Não viu a estampa horrorosa?
Por puro experimento literário, vamos pedir que a mesma vizinha do 703 perca alguns minutinhos e repita a descida no elevador, só que na companhia de uma criança. Ao sair do elevador, a criança terá reparado nas pedrinhas da sandália da vizinha do 703, ou na estampa da vizinha do 703, ou no tamanho da vizinha do 703. Mas o rápido convívio com a vizinha do 703 terá servido para estimular a imaginação e não para anestesiar o lugar-comum do juízo de valor.
Por puro experimento literário, vamos pedir que a mesma vizinha do 703 perca alguns minutinhos e repita a descida no elevador, só que na companhia de uma criança. Ao sair do elevador, a criança terá reparado nas pedrinhas da sandália da vizinha do 703, ou na estampa da vizinha do 703, ou no tamanho da vizinha do 703. Mas o rápido convívio com a vizinha do 703 terá servido para estimular a imaginação e não para anestesiar o lugar-comum do juízo de valor.
É por causa desse lugar-comum que a gente anda com tanto medo. Em vez de criar pontes,
estamos construindo abismos. Aí, tem que dar medo mesmo. Porque o
simples ato de caminhar passa a ser um exercício perigosíssimo.
Tem
gente que não consegue caminhar nem dentro de si mesmo. Se
profissionalizou tanto na arte de escavar abismos que já não consegue
mais transitar dentro de si mesma sem medo de cair. Qualquer memória
pode ser a senha para um precipício.
É
preciso que cultivemos a arte de sermos flanêurs de nossas paisagens
internas. De que, de vez em quando, caminhemos a esmo, por entre
lembranças, cheiros, saudades. Sem guia de viagem. Para que, imersos nas
ruas escuras de nossas memórias, tenhamos a chance de reencontrar o
inesperado. Um porquinho comedor de maçãs, que seja. E possamos abraçar e
botar o papo em dia com aqueles que, antes de mais nada, somos nós mesmos.








