A insólita história - verídica - da vaca que cai do céu e atinge um barquinho chinês é o ponto de partida para Um conto chinês. O chinesinho do barquinho vai parar na Argentina e, perdido, acaba adotado pelo personagem de Ricardo Darín. E começam os atritos, a maior parte deles cômicos, já que o chinesinho não fala espanhol e o público não tem acesso a legendas. Estratagema esperto, para que nós, espectadores, pactuemos dessa posição de estranheza experimentada por Darín.
Desde os primórdios do cinema, são muitos os filmes que exploram essa temática da dificuldade de conviver com o outro, esse que a gente define como outro porque nos é diferente. Gran Torino, Olhos azuis, Um conto chinês parecem-me exemplificar isso. Com a diferença de que o outro não é só um negro, como em Conduzindo Miss Daisy; de outra geração, como em Perfume de mulher. O outro é tão outro que a única coisa em comum é o fato de que ele é humano. E aí parece que há uma mensagem importante e, não à toa, Gran Torino, Olhos Azuis, Um conto chinês têm um final feliz ou, pelo menos, positivo. Seus discursos são, em alguma medida, semelhantes. Parecem querer dizer que, nesses nossos tempos em que a própria noção de fronteira parece uma relíquia do passado, o covívio entre humanos - não importa quão diferentes sejam - é um convívio possível. Mais até: é um convívio que leva à soma, ao aprendizado, torna o humano em questão mais humano.
Estou sendo explicacionista e o meu recorte é extremamente parcial, o que é sempre um risco. Risco de reduzir todos esses filmes. Não é a intenção. Mas num mundo em que lâmpadas voam em rostos, em que um pai abraçado a um filho é agredido porque parecem gays, em que um homem é morto por torcer para um time adversário, acho que precisamos de mais filmes como Um conto chinês, para apontar que o convívio não só é possível e necessário. Ele enriquece.
Estou sendo explicacionista e o meu recorte é extremamente parcial, o que é sempre um risco. Risco de reduzir todos esses filmes. Não é a intenção. Mas num mundo em que lâmpadas voam em rostos, em que um pai abraçado a um filho é agredido porque parecem gays, em que um homem é morto por torcer para um time adversário, acho que precisamos de mais filmes como Um conto chinês, para apontar que o convívio não só é possível e necessário. Ele enriquece.

15 comentários:
Exato.
Esse eu quero ver...
ou seja, se vc sabe espanhol perde um pouco da idéia do filme?
Não, Foxx, acho que não; por quê?
E essa ultima lição é uma que tenho vivenciado bastante na prática ultimamente.
Linda resenha. Concordo plenamente com seu ponto de vista e acho que o filme aponta exatamente para a possibilidade de transformação no tratamento da diferença.
Se inicialmente a diferença é vista como anomalia ou disfunção (que se vê na própria dificuldade advinda do não-compartilhamento de um vocabulário comum), aos poucos se desenvolve um impulso regenerativo da visão do Eu em relação ao Outro.
Esse impulso permite a construção de uma nova identidade: se antes a diferença é vista como a negação da própria identidade pelo argentino e pelo chinês, no desenvolvimento do filme ambos descobrem elementos de sua própria experiência na vivência do outro.
É na identificação de experiências comuns (muito bem sacadas na similitude das histórias absurdas e surreais nas vidas de ambos) que se tem o impulso para o desenvolvimento de entendimentos alternativos sobre a diferença.
Em vez de se tratar o Outro como alteridade, vê-se nele um meio de repensar o próprio Eu e de se estimular a redefinição do perfil de relacionamento que se desenvolve. Isso se dá no filme por meio da autocrítica e da compreensão advinda do desenvolvimento de novos sentimentos, como o próprio afeto.
Mais uma resenha impecável, meu caro Diego. Parabéns do seu homônimo.
Tava passando quando eu fui em BsAs este ano. Deixei de ver por... deixa pra lá.
"Em vez de se tratar o Outro como alteridade, vê-se nele um meio de repensar o próprio Eu e de se estimular a redefinição do perfil de relacionamento que se desenvolve."
Estou refletindo sobre.
achei marrômenos
melancolia é uma obra. até bem suave pra lars né
árvora da vida é bacana. pretensioso demais, mas lindo
já tava querendo ver este filme. depois da sua crítica, fiquei com mais vontade.
Vou ver. Por usa causa e pelo Darín. Bjs
Se tem o Ricardo Darín deve ser bom mesmo mas eu nem estava sabendo (pelo menos aqui em Portugal) que este filme existia!!!
Abraço.
"Estou sendo explicacionista e o meu recorte é extremamente parcial, o que é sempre um risco". Neste caso, um rabisco.
Amei filme e a forma como vc escreveu expecionalmente a parte onde cita "acho que precisamos de mais filmes como Um conto chinês, para apontar que o convívio não só é possível e necessário" finalizando vamos unir as diferenças
Poxa, Marcelo, aqui não tem nenhuma forma de contato pra eu te escrever e agradecer a leitura e comentário. Mas obrigado!
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