Literatura, roteiro e mercado editorial: o escritor multimídia. O título me instigou. É o nome do primeiro capítulo de Narrativas migrantes: literatura, roteiro e cinema, livro da professora da PUC-RJ Vera Lúcia Follain de Figueiredo.
Nesse primeiro capítulo, Vera lembra que as relações entre mercado editorial e cinema existem desde a invenção do cinema, mas hoje, com as convergências dos meios, essas interseções ganham novas proporções. Livros ganham novo fôlego de vendas (e maior público leitor) depois que viram filmes. Cientes disso, as editoras criam novas capas, que capitalizam o apelo cinematográfico de volta para o mercado editorial, numa retroalimentação contínua.
A capa de O diabo veste Prada antes e depois do filme.
Reparem que a capa pós-fime faz menção lá no alto a
Meryl Streep, Anne Hathaway e Gisele Bündchen
Ora: os livros sempre estiveram vinculados no imaginário da Modernidade a uma alta cultura. Mas se eles, em vez de só dar prestígio para o cinema, passam também a se alimentar do prestígio cinematográfico, isso demonstra uma queda dessa hierarquização.
De fato, o lugar da literatura parece não ser mais o mesmo. Capas de produtos literários são mudadas depois que viram filmes e muitos romances passam a ser editados em formato de
livro juntos com seus roteiros. O efeito observado por Vera? A literatura
"deixa de ser vista como uma obra
acabada, e herda do roteiro o caráter de texto que antecede uma obra
principal e que será lido a partir dela."
Quem hoje consegue ler O diabo veste Prada sem imaginar Meryl Streep no papel de Miranda? Exercício difícil.
Não são só os livros que dão origem a filmes que aquecem o mercado editorial. Há livros de teoria, livros de fotos. Até os roteiros passam a ser publicados, colocando em xeque a noção de que o roteiro é um objeto transitório, não um produto final em si. Se é assim, Vera nos provoca com a lembrança da publicação de Casa-Grande, senzala e cia: roteiro e diário, livro que traz o roteiro e os registros dos preparativos do filme de Joaquim Pedro de Andrade (baseado na obra de Gilberto Freire), que foi interrompido e nunca finalizado por falta de recursos.
![]() |
| O roteiro e os registros do filme que nunca existiu para ser lido por todo o público não-especializado |
E se roteiros não são hoje considerados literatura, Vera lembra que no século XVII os autores de teatro torciam o nariz quando recebiam propostas para publicarem suas obras teatrais. Molière mesmo só enviou suas peças aos impressores para combater as cópias piratas em circulação. O dramaturgo francês achava que os efeitos da peça dependiam do lugar e do modo como ela era apresentada, coisa que o texto escrito, estável, jogava por terra.
Pois bem. Hoje a leitura de peças em formato de livro é algo plenamente assimilado. Mas, curiosamente, muitos roteiristas correm para escrever livros (romances principalmente) e serem publicados - num sintoma de que o livro como meio de prestígio e referência ainda é forte. Talvez também por um outro aspecto: é que, enquanto a autoria do cinema é sempre coletiva, no caso do livro, o lugar do autor é bem demarcado e isso dá a sensação de um chão firme onde o artista pode colocar seus pés.
"A literatura entra nesse circuito e o alimenta, mas sem a proeminência
de outrora, pois (..) as fronteiras do campo literário se distendem
para abarcar textos que se situam na interseção entre artes diversas,
difundidos por diferentes meios, suscitando novas práticas de leitura."
"As instâncias intermediárias do processo construtivo dão origem a produtos que se equiparam à obra final, porque esta servirá de base a uma outra obra, e assim sucessivamente, num constante movimento de remissão, que reafirma a vocação para o comentário, para a metalinguagem, que caracteriza a contemporaneidade."
Vocação que permite que esse blog, por exemplo, dialogue com um livro impresso. Ou, mais precisamente: com um capítulo dele.




10 comentários:
acho q vc não leu o diabo veste prada, né? o personagem da miranda no livro é tão diferente da miranda do cinema, nem dá pra imaginar a Meryl Streep, apesar de eu confesso q imaginei a Anne Hathaway
um ps q lembrei depois: me lembrei tanto da polifonia textual e o dialogismo do todorov...
Li O Diabo Veste Prada na semana em que ele saiu, muito antes de ele ser cogitado pra ser filmado. Um acaso. Vi ele na seção de lançamentos da livraria, achei curioso o título, comprei. Naquela época, jamais imaginaria Meryl como Miranda. Mas me parece que hoje, depois daquela interpretação tão bem feita de Meryl, é um pouco difícil de, ao ler o livro, pelo menos não lembrar dela.
pois é Diego, a Meryl Streep está realmente incrível, mas a Miranda dela não tem nada a ver com o personagem do livro, pra mim pelo menos. a Miranda do livro é uma chefe exigente, apenas isso; no filme, ela é um monstro.
Mas veja, Foxx. O que eu estou apontando aqui nos comentários - e acho que o texto principal aponta também - não é uma ideia de substituição, de monopolização, mas de contaminação. Depois do filme, ao pegarmos o livro, acho difícil que alguém não lembre da construção daquelas atrizes. Não é que a interpretação de Meryl monopolize o imaginário de quem lê o livro, mas acho que em alguma medida contamina.
Você não acha?
Hey, adorei seus blogs, mas resolvi comentar nesse, pois parece que você o atualiza mais.
Eu AMO O Diabo Veste Prada. Acho o filme incrível, apesar de não ter lido o livro e fiquei surpreso em ver como a capa mudou, para melhor, na minha opinião.
-> Até a próxima. De repente, eu volto.
*DB*
Diego, faz sentido sua análise. Mas o que não significa que isso seja de todo mal. Por mais que o cinema esteriotípe e coloque limites no imaginário conto dos livros, ele permite a construção de uma segunda análise, no caso a do diretor.
Independente de qual obra literária transformada em cinema, nunca ficaremos felizes e nunca acharemos os filmes iguais aos livros. Pois, é justamente essa a função do livro: permitir que cada um imagine sua história.
Em relação às analogias feitas com os personagens do filme, concordo que realmente se faz mais forte a imagem visual dos filmes do que a do nosso imaginário. Despois do filme, Miranda Priestly sempre será Meryl Streep!
Unthinkable!!!
Mas, Fernando: eu não disse que isso era ruim. Quer dizer: acho que não é nem bom nem ruim a priori né? É sintoma dos nossos tempos. A matéria ficcional tem deslizado pelos suportes com mais facilidade. Agora, a gente precisa analisar os produtos caso a caso para ver se a dinâmica foi positiva ou negativa. (Se bem que isso de positivo ou negativo eu já ache um cadinho empobrecedor)
E a análise não é minha, mas da professora Vera Lúcia Follain. Eu só tentei compilar o que ela desenvolve no primeiro parágrafo do livro dela.
Mas jura que essa professora e seus leitores só descobriram agora a história do livro que muda a capa e adapta a estratégia de marketing depois que vira filme? Isso acontece pelo menos desde E o Vento Levou - senão antes. Quanto ao Diabo Veste Prada, ele já foi publicado com os direitos vendidos para Hollywood - operação amplamente divulgada durante seu lançamento. Aliás, os roteiristas fizeram um belo trabalho transformando uma narrativa forçada e banal numa comédia agradável e muito mais próxima da realidade dos bastidores das grandes publicações de moda. Em sendo assim, com os devidos chavões acadêmicos mal alinhavados, o post todo apenas chove no molhado. Roda, roda e não avisa.
Embora eu respeite a posição do Anônimo acima, eu preciso dizer que não concordo com ela. Acredito que seja necessário levar em conta a intertextualidade existente entre filme e livro - como você, Diego, bem destaca no seu comentário -, a interconexão entre as diferentes mídias e o contetxo de expansão das relações capitalistas de produção, que funciona como pano de fundo desse processo. Essa simbiose torna a composição e a leitura da obra de arte muito mais complexa e diversa. Com maestria e precisão (sem, é claro, desmerecer a opinião do Anônimo acima), você mapeia o contexto em que essas obras são interpretadas e atenta para as multiplicidades de sentido que podem advir dessa nova relação entre os meios de comunicação. Parabéns pela análise e espero que possamos ver mais comentários seus à obra da Vera, sem dúvida uma das maiores especialistas de Comunicação Social, Literatura e Cinema no Brasil.
Postar um comentário