Há uma outra hipótese para o silêncio. Que é quando o tempo vem descansar dentro da gente. Como um amigo antigo, que a gente conhece muito bem, mas encontra só de quando em quando. Porque ele é muito requisitado e está sempre correndo pelo mundo. Até que um dia liga pedindo socorro. E você o recebe. E acabam se divertindo de maneiras tão antigas e simples que você nem lembrava mais - como quando ele brinca de embaralhar presente, passado e futuro, fazendo você sentir coisas tão absurdas como nostalgias do agora e saudades de um futuro muito distante. Em agradecimento, você o ensina a escavar o azul da tarde em busca de pequenos tesouros, como o voo de uma andorinha antiga, ou o rastro de um meteorito.
Então o tempo avisa que é tempo de partir. Para distraí-lo, você precisa ensinar novos jogos, mas, como não sabe mais nenhum, improvisa. E quando percebe, lá está você ensinando o tempo a colher cantos de pássaros perdidos no vento, ao que ele agradece com um truque que nem ele sabia que sabia - como esse, em que ele escolhe um segundo ao acaso e sopra tanto ar, que, rechonchudo como um balão de festa, o segundo se atrapalha, reclama que não foi feito para isso, ziguezagueia no ar e demora a passar.
Assim, aos poucos, esse tempo que não parte acaba se tornando um tempo só seu. E ele acaba incorporando coisas suas e você incorporando coisas dele de tal maneira que, um dia, você não sabe mais onde você começa nem onde ele termina. E então o tempo passa a ter um lar onde antes ele tinha você e você passa a ter um lar onde antes você tinha o tempo.
4 comentários:
Difícil fazer o tempo vir descansar dentro de mim, morando onde eu moro... mas, enfim.
Me bateu uma saudade do sítio... lá, o tempo era, por natureza, descansado. E preguiçoso
Adorei o texto.
Meu Deus... ler isso a 5 graus negativos, numa terra estranha... Será que o tempo é um “a priori”, como queria Kant? Um inerente, uma lente apenas, da qual não conseguimos nos desvencilhar?
Beijos frios (aprioristicamente quentes).
que texto lindo
parabens!
Que lindo! Contém toda a beleza e tristeza dos encontros mais especiais!
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